sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Célio o ex-traficante que recupera drogados


Ex-consumidor e ex-traficante de droga, Célio Luís Barbosa dedica-se agora a desintoxicar e recuperar dependentes – drogados e alcoólicos – numa fazenda do Maranhão, no Brasil. Explica: «Prometi dar o meu testemunho e, se preciso, a própria vida.»



O nome Célio era respeitado no mundo do crime organizado e temido pela polícia. O que lhe valeu a alcunha de «Caixão»: quando saía para resolver uma «questão» havia morte pela certa. Controlava o negócio da droga no eixo Rio de Janeiro-Belo Horizonte e dele retirava lucros chorudos.

Estava em vias de expandi-lo ao estado de S. Paulo, quando acontece o grande revés da sua vida: o seu irmão é morto, num ajuste de contas entre traficantes, em 2 de Março de 1984. Sente-se culpado: «Fiquei louco ao ver o meu irmão assassinado e esquartejado na minha frente. Foi tudo por causa do que eu era. Até então nunca ninguém tinha mexido comigo...»

A imagem do irmão esquartejado abala-o tão profundamente que decide mudar de vida. Aliás, diz que a recordação do irmão e das pessoas que executou nos seus «anos de chumbo» são lembranças amargas, que ainda lhe perturbam o sono.

Com a ajuda de dois padres, um dos quais seu tio, é internado num centro de recuperação e começa o doloroso processo de reconstrução da sua vida. Que lhe exigiu muito esforço, perseverança, gastos económicos e investimento emocional e espiritual.

Na Fazenda do Senhor Jesus, onde se dá a recuperação, todos sabem quem ele é. O medo e a desconfiança apodera-se dos seus colegas, que o mantêm à distância. E, como se verá, não lhes faltava razão.

Célio é encarregado de tratar dos animais da fazenda, «os únicos companheiros que tinha diariamente». Depois de seis meses, já se tinha afeiçoado ao trabalho e sentia um enorme prazer em cuidar do gado e tirar o leite das vacas para sustentar os 150 internados. Era um sentimento novo.



Matar com o espeto



As grandes mudanças interiores, todavia, demoravam. Um dia, quis vingar-se de um colega. «Eu ia furar o cara sem sangrar», recorda. Nunca tinha deixado de realizar o que planeava. Calculou tudo ao pormenor. Tinha preparado um espeto e esperou pelas três horas da manhã, quando todos dormiam, para executar o seu plano.

O espeto estava guardado junto de um terço que um padre americano, de Phoenix, lhe tinha oferecido. A Providência troca-lhe as voltas: «Peguei aquele terço. Não passou dois minutos e adormeci». Acordou ao som da sirene, assustado, ainda com o espeto na mão. Ficou preocupado, mas procurou disfarçar para que os outros não se apercebessem de nada. Tinha falhado o homicídio.

Mais surpreendente foi que, logo depois, aquele que devia ser a vítima veio pedir-lhe desculpa e dar-lhe um abraço. «Caí do cavalo! Aprendi a perdoar», diz emocionado. E acrescenta: «Foi a primeira experiência de Deus e a mais profunda da minha vida. Prometi a mim mesmo que iria oferecer toda a minha vida para ajudar jovens drogados, dando assim o meu testemunho e, até, a própria vida, se fosse preciso».

Milagre ou não, as coisas mudaram mesmo. Célio passou a rezar e a ler a Bíblia. Descobriu que a sua história e conversão tinham muito a ver com o que aconteceu a Paulo de Tarso, que «caiu do cavalo» e de perseguidor dos cristãos se transformou em Paulo, apóstolo de Jesus.

Terminado o tempo na fazenda, Célio voltou para casa. Montou uma fábrica de cintos e bolsas, mas logo se apercebeu de que não era isso que queria. Aceitou um primeiro convite para trabalhar na recuperação de drogados, na fazenda Recanto de Canaã, em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais.

Pouco depois troca este convite por um outro, mais ousado, que lhe é feito pelo padre italiano Pedro Balsi: dirigir a Fundação Paz, nos arredores de Teresina, no Maranhão, que se dedica à recuperação de toxicodependentes.

Antes de chegar ao Maranhão, frequentou cursos na área da psiquiatria na Universidade Federal do Rio de Janeiro e na Universidade Federal do Ceará: «Os cursos fizeram-me adquirir mais experiência. Ajudaram-me a unir a teoria e a prática e a entender melhor a psique das pessoas.»

As leis do tráfico tinham-no feito um homem duro e insensível. A adesão à lei de Deus fazia-o amante dos pobres e sensível à realidade dos jovens dependentes das drogas.



Pedagogia do trabalho



Há sete anos que Célio coordena uma equipa de oito pessoas, que, em duas fazendas, estão ao serviço de 70 dependentes. A sua recuperação é extremamente difícil. Exige bastante vontade pessoal, coragem, disciplina rigorosa, trabalho físico árduo, bons exemplos, muito companheirismo, conhecimento de si, e forte espiritualidade.

O horário diário na Fazenda Esperança é bastante rígido e está completamente preenchido; o programa semanal bem determinado. A maior parte do tempo é dedicado ao trabalho físico (agro-pecuária, limpeza da casa, serralharia...). Para Célio, para se desintoxicar e purificar o sangue, o dependente tem que suar. É a chamada laboterapia ou trabalho ocupacional.

A jornada inclui ainda tempo para estudar os 12 passos da filosofia dos Alcoólicos Anónimos (AA), fazer desporto, teatro, exercícios de relaxamento e de «regressão», rezar, ler e meditar a Bíblia, rever comportamentos em grupo, com correcção fraterna e, se necessário, pedido público de desculpa. A finalidade de tais exercícios «é aumentar a auto-estima, extirpar a violência que existe em cada um e reaprender o sentido da vida».

A disciplina é fundamental. Segundo as normas da casa, «quem erra paga». Assim, estão previstos serviços à comunidade como punição por certo tipo de erros, de modo a reeducar o carácter para o respeito e cumprimento das normas sociais.

«O nosso trabalho é limpar o lixo acumulado ao longo dos anos de consumo de drogas», afirma Célio. O lema é «mudar de vida», para não voltar às drogas. Por isso, «o dependente encontra tudo aquilo de que não gosta: normas, disciplina, trabalho, capela. Tudo o que antes não fazia e que o abre para novos horizontes», explica o coordenador da fazenda.

Célio não aceita que os toxicodependentes se apresentem só como vítimas da sociedade e não reconheçam a sua culpa enquanto «agressores da sociedade». Caso contrário, não resolvem o seu problema.

O processo de recuperação dura pelo menos nove meses. A inserção na sociedade não é fácil. A pessoa é amarrada ao seu passado, desprezada, e não lhe são dadas novas oportunidades. Por isso, a Fundação cuida do aspecto profissional dos jovens. «Eles devem chegar ao mercado de trabalho de igual para igual para terem chances.» Igualmente importante é ajudar as famílias dos toxicodependentes, que também ficaram doentes, e ajudar os jovens a escolherem os amigos ao iniciarem uma nova vida.

Na fazenda não usam químicos de substituição. As crises de abstinência são duras. De cada dez que lá chegam, três ficam. Célio está satisfeito com a percentagem de perseverança: 32 por cento.

O processo é muito árduo, mas tem dado frutos. «Nos últimos sete anos, recuperámos 380, dos 820 que passaram por cá», afirma com algum orgulho e consciência de estar no lugar certo a cumprir a difícil missão de resgatar do fundo do poço muitos dos que, como ele, lá caíram.



«Especializei-me no crime»



Célio conta de modo telegráfico o seu percurso: «Comecei a usar drogas quando tinha 11 anos. Aos 12, fugi de casa. Aos 15, fui preso. Durante os oito meses de prisão especializei-me no crime. Aprendi a abrir cofres, organizar quadrilhas, planear acções de guerrilha. Quando saí de lá, comecei a assaltar bancos e joalharias. Aos 18, entrei no narcotráfico. No início, vendia dois quilos de cocaína e entre 100 e 200 quilos de maconha (liamba ou Cannabis) por mês no Rio de Janeiro. Entretanto, o principal traficante de Minas Gerais é morto. Tomei, então, o seu lugar. Um dos meus clientes era o neto de Tancredo Neves, que foi Presidente do Brasil, que consumia quilos de cocaína. Expandi-me no negócio. Fiquei rico e famoso. Com o dinheiro que ganhava, financiava as campanhas eleitorais de muitos deputados (de que não revela os nomes, por se tratar de figuras ainda bem conhecidas na política brasileira). A gente injectava dinheiro na campanha deles e eles mandavam a polícia transportar e guardar a droga. Trajava fato e gravata. Aos 20 anos casei com uma delegada do Ministério Público, da qual me separei aos 24. Andei no mundo da droga 14 anos. Já traficava 4500 quilos de maconha por mês. Tinha 300 «bocas de fumo», ou seja, pontos de venda, sobretudo nos estados de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Fui indiciado em 42 processos (18 homicídios e 24 assaltos à mão armada), dos quais seis ainda não estão resolvidos. Estou com 42 anos e já saí do meio há 17. Mas não se esqueça que, apesar de terem passado todos estes anos, Célio Luís Barbosa, mais conhecido por Célio “Caixão”, continua a ser uma lenda viva em Minas Gerais.»





«Deus mostrou-me o caminho»



Mauri Roberto, hoje em dia um colaborador próximo de Célio, tem 35 anos e um trajecto algo parecido. Órfão de pai e o mais novo de quatro irmãos, iniciou-se no vício e no crime aos dez. «Era curiosidade. Comecei a usar maconha. Por ser menor, não tinha medo de ser preso. Roubava e traficava. Deixei-me levar pelo gosto de viver perigosamente. Gostava da aventura, da emoção. Os amigos incentivavam-me. Tenho um homicídio às costas», revela sem reservas ao contar a sua história.

Um dia, durante um assalto, apanhado no meio do fogo cruzado entre polícias e bandidos, esteve à beira da morte. A experiência marcou-o e fê-lo acordar para a realidade que estava a viver. Tinha 15 anos. A quadrilha a que pertencia actuava na região paulista, principalmente em Campinas e Sorocaba. Mauri aprendeu a invadir mansões, onde roubava sobretudo dinheiro e jóias. Era hábil, esperto e ganancioso. Acabou preso por homicídio. Cumpriu a pena. «Hoje em dia eu não devo mais nada à justiça», garante.

Ao sair da prisão, começou o difícil processo de recuperação, que passava por vencer a droga e mudar o coração. Aos poucos, as mudanças aconteceram. «Aprendi a dar sentido à minha vida, a respeitar, a partilhar, conhecer o amor, respeitar o outro, deixar de ser ignorante, egoísta. Tinha que começar a confiar nas pessoas, pois eu não confiava em ninguém».

Após nove meses de trabalho, sentia que tinha nascido de novo. E tinha uma explicação para tanta mudança: «Quem me pegou foi Deus. Deus me levou e me mostrou o caminho. Quando eu saí da fazenda voltei para a família. Mas um colega de internato, Luís Vito, convidou-me para uma nobre missão: ajudar outros dependentes de drogas.» Aceitou o desafio. A partir daí, ajuda a reconstruir os outros ao mesmo tempo que se reconstrói a si mesmo.

Agricultor, electricista, canalizador e tipógrafo, Mauri queria partilhar seus dons, a sua experiência profissional e espiritual. Desenvolver programas e projectos que ajudassem os dependentes a reencontrar-se, na vida e na sociedade. Não é fácil. Por isso, põe-se nas mãos de Deus: «Senhor, leva-me a um local em que seja realmente útil. Orienta-me. Prepara-me. Não tenho muita força, mas estou apto para fazer o que o Senhor quiser que eu faça.»

No Encontro das Comunidades Terapêuticas do Brasil, Mauri revê Célio, que o convida a colaborar com ele na Fazenda Esperança. Mais uma vez, responde à chamada. A partir de Dezembro de 2000, trabalha com os internos no Projecto de Agricultura-Irrigação II: bananeira, mandioca, milho, feijão, abóbora, melancia, são os frutos da terra irrigados graças à capacidade e à técnica deste missionário.

Procura transformar o trabalho numa dádiva de amor, numa forma de partilha. Mas não consegue deixar de questionar-se: «Quando fui julgado, um juiz disse que devemos ser honestos para com a sociedade. Fiquei pensando naquela frase. Mas como ser honesto para com a sociedade, se a própria sociedade não é honesta para com a gente que se recuperou? Ela não aceita eu ter mudado. Mas aceitava-me quando eu era criminoso...»

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